Ao escrever meus primeiros versos no chão de terra,
Senti que poderia ser uma vítima culpada do por vir.
O medo da perda escondeu-os de outros olhos,
Impedindo a sensação de paz por mim sentida.
O medo da perda a privou de outras pegadas,
Impedindo a vida simples de outras vidas.
No silencio da noite, furtei duas vezes,
Uma vítima foi o mundo, a outra minha vida.
Cerquei a terra e escondi meus versos,
Mas ambos eram tão não meus quanto seus.
Se os versos da vida estavam escondidos,
A terra do mundo agora tinha um dono.
Escondidos e cercada…
Os versos foram escondidos de tal forma,
Que nunca mais os encontrei.
Percebi por fim que eles escondiam-se de mim.
Fugiam daquele que os fez, o egoísta criador.
A terra fora liberta pelo tempo e pela força.
As cercas apodreceram e a terra retornaram.
Notei a lógica da existência dos versos e da terra.
Livres e sem dono. Livres, logo, de todos.
Antonio Hércio
Navegar é preciso, mas computadores são mais.
A mulher que obedecia, hoje é patroa.
A pena que escrevia, agora apenas voa.
Manga e leite que matava, hoje é sabor de suco.
Com relógio digital no lugar do velho cuco.
A Terra era imóvel, hoje carrossel.
E a honra vale menos que um pedaço de papel.
A casa com quintal foi ficando vertical.
Morrer de fome hoje é causa natural.
O quadro que chocava, está empoeirado.
O bilhete que era escrito, hoje em dia é digitado.
O disco de vinil, encareceu, diminuiu.
O dinheiro que sumiu ninguém sabe ninguém viu.
Acertar na loteria, é que coisa se tenta.
O Brasil era colônia, agora já é penta.
Depois da ovelha, só falta clonar gente.
O da Silva operário, agora é presidente.
Mas já é tarde…
A guerra prevista, agora é revista.
A bomba foi temida, hoje é respeitada.
Quem se foi já não tem vida.
Não tem nome não tem nada.
Antonio Hércio
A vingança de Balaio
Nos tempos da Regência
No Nordeste brasileiro
Caminhava triste figura
Entre o sonho e desespero
Tá aqui a minha história
Artesão da região
Do sertão do Maranhão
Manuel Francisco Ferreira dos Anjos
Pelas bandas de Coroatá, me chamavam de Balaio
Mas só lhes peço uma coisa antes de começá:
Não me olhem de soslaio
Nem desandem a chorá
Não vivia de agregado
Nem tão pouco era empregado
De herança de meu pai
Um terreno acatingado
Onde plantava o que comia
E comia o que plantava
Quatro bucho pra encher
Era pouco o que sobrava
A fartura não havia
Ou melhor, havia sim!
Fartava carne, fartava fruta,
Fartava água até aipim.
Fazia com carinho
Cesta de palha e peneira
Na oficina minhas filha
Era elas costureira
Eu vendia os balaio
De domingo lá na feira
Que montavam no terreiro
Infestado de poeira
Eu vos digo meus amigos
Tudo, tudo é forte no sertão
Grande e forte é a lei
Da peixeira e do facão
Forte é o sertanejo
Que ninguém sabe seu nome
Forte seca, forte sede
Forte sol e forte fome
Na venda do Bastião
Onde ia a tardezinha
Trocar por outras coisas
Minhas sacas de farinha
Proseava horas sobre
As últimas de Coroatá
Até que a patroa
Acenava pra volta.
Numa tarde ensolarada
Olhando ao longe vejo
Tropas legalistas
Cruzarem o vilarejo
Sujeitos desalmados
E cheios de maldade
Voltei esbaforido
Mesmo assim já era tarde
Minha mulher tremia
No chão chorando me contava
O causo que a pouco
Infelizmente se passava
Minha raiva e minha ira
Eles tinha despertado
Minhas filhas tão amadas
Eles tinham desonrado
Carreguei comigo
Uma sede de vingança
Vida simples e tranqüila
Ficaram na lembrança
Aperto no peito, nó na garganta
E dor no coração
Perseguir aqueles cabras
Por todo Maranhão
Fui pedaço de vida em fim de feira*
Ave bala que tem mira certeira*
Vingança! Oh palavra incandescente!
Sou Balaio, sozinho um impotente
Com amigos, conhecidos, muita gente
Sou a presa afiada da serpente*
Que cochila nos pés do cangaceiro*
Essa noite eu retalho o mundo inteiro!
Agora quero justiça
E adentro a Balaiada
Que foi, com tal nome
Por minha causa batizada
Minha morte veio antes
Da revolta terminada
Porém minha vingança
Foi em parte executada
Nas veredas estreitas do universo
Matei muitos legalistas eu confesso
Mas no meio dos legais eu matei gente
O mesmo erro, era gente inocente!
*Trechos de cantigas e literatura de cordel popular presentes na cultura nordestina.