Wednesday, November 5, 2008

Seja bem vindo!

“Acredito que a socialização da arte não a torna um fim em si, mas sim, produz um meio material-social para o seu real sentido de existência.” 
- Antonio Hércio (Pedro Peres Júnior)

Se você gostou destes trabalhos colabore para o lançamento de meu primeiro livro.

Seja um mecenas moderno:

Agência: 1220-3
Conta: 27899-8
Banco do Brasil

Qualquer quantia será bem vinda, obrigado.

Pedro Peres Júnior e Antonio Hércio (heterônimo)

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Thursday, May 15, 2008

Os versos e a terra

Ao escrever meus primeiros versos no chão de terra,
Senti que poderia ser uma vítima culpada do por vir.
O medo da perda escondeu-os de outros olhos,
Impedindo a sensação de paz por mim sentida.
O medo da perda a privou de outras pegadas,
Impedindo a vida simples de outras vidas.
No silencio da noite, furtei duas vezes,
Uma vítima foi o mundo, a outra minha vida.
Cerquei a terra e escondi meus versos,
Mas ambos eram tão não meus quanto seus.
Se os versos da vida estavam escondidos,
A terra do mundo agora tinha um dono.
Escondidos e cercada…
Os versos foram escondidos de tal forma,
Que nunca mais os encontrei.
Percebi por fim que eles escondiam-se de mim.
Fugiam daquele que os fez, o egoísta criador.
A terra fora liberta pelo tempo e pela força.
As cercas apodreceram e a terra retornaram.
Notei a lógica da existência dos versos e da terra.
Livres e sem dono. Livres, logo, de todos.

Antonio Hércio

 Navegar é preciso, mas computadores são mais.

A mulher que obedecia, hoje é patroa.
A pena que escrevia, agora apenas voa.
Manga e leite que matava, hoje é sabor de suco.
Com relógio digital no lugar do velho cuco.
A Terra era imóvel, hoje carrossel.
E a honra vale menos que um pedaço de papel.
A casa com quintal foi ficando vertical.
Morrer de fome hoje é causa natural.
O quadro que chocava, está empoeirado.
O bilhete que era escrito, hoje em dia é digitado.
O disco de vinil, encareceu, diminuiu.
O dinheiro que sumiu ninguém sabe ninguém viu.
Acertar na loteria, é que coisa se tenta.
O Brasil era colônia, agora já é penta.
Depois da ovelha, só falta clonar gente.
O da Silva operário, agora é presidente.

Mas já é tarde…

A guerra prevista, agora é revista.
A bomba foi temida, hoje é respeitada.
Quem se foi já não tem vida.
Não tem nome não tem nada.

Antonio Hércio

A vingança de Balaio

Nos tempos da Regência
No Nordeste brasileiro
Caminhava triste figura
Entre o sonho e desespero

Tá aqui a minha história
Artesão da região
Do sertão do Maranhão
Manuel Francisco Ferreira dos Anjos

Pelas bandas de Coroatá, me chamavam de Balaio
Mas só lhes peço uma coisa antes de começá:
Não me olhem de soslaio
Nem desandem a chorá

Não vivia de agregado
Nem tão pouco era empregado
De herança de meu pai
Um terreno acatingado

Onde plantava o que comia
E comia o que plantava
Quatro bucho pra encher
Era pouco o que sobrava

A fartura não havia
Ou melhor, havia sim!
Fartava carne, fartava fruta,
Fartava água até aipim.

Fazia com carinho
Cesta de palha e peneira
Na oficina minhas filha
Era elas costureira

Eu vendia os balaio
De domingo lá na feira
Que montavam no terreiro
Infestado de poeira

Eu vos digo meus amigos
Tudo, tudo é forte no sertão
Grande e forte é a lei
Da peixeira e do facão

Forte é o sertanejo
Que ninguém sabe seu nome
Forte seca, forte sede
Forte sol e forte fome

Na venda do Bastião
Onde ia a tardezinha
Trocar por outras coisas
Minhas sacas de farinha

Proseava horas sobre
As últimas de Coroatá
Até que a patroa
Acenava  pra volta.

Numa tarde ensolarada
Olhando ao longe vejo
Tropas legalistas
Cruzarem o vilarejo

Sujeitos desalmados
E cheios de maldade
Voltei esbaforido
Mesmo assim já era tarde

Minha mulher tremia
No chão chorando me contava
O causo que a pouco
Infelizmente se passava

Minha raiva e minha ira
Eles tinha despertado
Minhas filhas tão amadas
Eles tinham desonrado

Carreguei comigo
Uma sede de vingança
Vida simples e tranqüila
Ficaram na lembrança

Aperto no peito, nó na garganta
E dor no coração
Perseguir aqueles cabras
Por todo Maranhão

Fui pedaço de vida em fim de feira*
Ave bala que tem mira certeira*
Vingança! Oh palavra incandescente!
Sou Balaio, sozinho um impotente

Com amigos, conhecidos, muita gente
Sou a presa afiada da serpente*
Que cochila nos pés do cangaceiro*
Essa noite eu retalho o mundo inteiro!

Agora quero justiça
E adentro a Balaiada
Que foi, com tal nome
Por minha causa batizada

Minha morte veio antes
Da revolta terminada
Porém minha vingança
Foi em parte executada

Nas veredas estreitas do universo
Matei muitos legalistas eu confesso
Mas no meio dos legais eu matei gente
O mesmo erro, era gente inocente!

*Trechos de cantigas e literatura de cordel popular presentes na cultura nordestina.

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Wednesday, January 24, 2007

Poemas de Criança

Primeiro primeiro dia de aula

Gosto de doce, de batata frita, de bife,
Gosto também de sorvete e de catchup.
Mas minha mãe nem deixa comer muito não…

Não gosto de injeção, de soluço, de avião,
Também não gosto de médico e de remédio.
Mas minha mãe fala que é para o meu bem…

Coisa gostosa faz mal e ruim faz bem?

Quando eu crescer eu vou ser inventor!
Vou inventar remédio docinho igual sorvete,
E injeção que não dói!
Mas se não for inventor, vou ser médico mesmo…
Ou então, piloto de avião!

Antonio Hércio

A Porta e a Chave

No labirinto da vida
Uma porta encontrei
Achei uma chave
E a chave eu peguei

A porta tinha um nome
Um nome de verdade
Ela se chamava
SOLIDARIEDADE

Mas fiquei cabreiro
Com preocupação
Peguei a tal da chave
E ela fugiu da minha mão

Perguntei a dona chave
Como ela se chamava
Ao invés de responder
Ela ficou envergonhada

Não parei de perguntar
E a chave atazanar
Pois sabia cedo ou tarde
Ela ia me contar

Ela olhou pra mim
Com um olhar de pessimismo
E me revelou
Que seu nome era EGOÍSMO

Com um nome assim
Sou chave infeliz
Revelou ela chorando
Em frente ao meu nariz

Combinei com dona chave
Uma boa solução
Ela num gesto nobre
Apertou a minha mão

Combinamos de sair
E ela ficou de pensar
Pois aquele velho nome
Nunca mais iria usar

No caminho do cartório
Que ficava na cidade
Decidiu seu novo nome
Seria FELICIDADE

Na volta do passeio
Veio ela feliz a cantar
Disse-me que na porta
Agora sim iria entrar

Com SOLIDARIEDADE
Consegui FELICIDADE
Abriu-se a porta e tenho
ALEGRIA DE VERDADE

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Thursday, January 11, 2007

Um domingo extraordinário

O homem do tempo falou e Dona Marta sorriu:
_ Domingo de muito sol entre nuvens…
Nuvens de fumaça de churrasco ela pensou ainda sorrindo.

Carvão do mais barato, do mais porcaria que vende no mercado trazido pelo Zelão, amigo de longa data.
_ Cê que trouxe, cê que acende homem!
E o bicho não braseava de jeito algum, ainda mais sem álcool. E Zelão como sempre acabava arrependido. Não pagou um real a mais para levar o carvão do bom.
Bem que sua mulher falara. Mas como sempre:
_ Tudo é carvão mulher, deixa disso!
Zelão soltou um leve sorriso de canto de boca. Ele olhou para a churrasqueira e ela pareceu retribuir o olhar. E mais, retribuiu com um tom desafiador! Zelão ressentiu-se ainda mais ao olhar morro acima. Viu dois sinais de fumaça em duas lajes da favela e imaginou a brasa vermelha, e a carne não tão vermelha, quase já assada…
O sol feito lustre denunciava que era meio dia, ou quase.
Já colocara fogo na seção de empregos, de classificados, a próxima seria a de esportes. Só não o fez porque viu na capa um jogador que ele não conhecia, mas com a camisa que ele amava.
Não sabia ler. Viu a manchete. Apenas viu, não leu.
Adorava futebol, sabia que seu time jogaria naquele domingo e não perderia o jogo por nada. E pelo jeito, o fogo também não acenderia por nada.
Sem mais jornais para queimar sentou-se em um tijolo. Olhou novamente para a churrasqueira e pensou: “É uma boa churrasqueira… O carvão que não é bom”.
A boa churrasqueira não passava de três tijolos empilhados formando um tripé que sustentava a velha caixa de luz, já muito queimada e renomeada a churrasqueira. E churrasqueira boa, para Zelão, o carvão que era ruim.
Zelão respirou forte. Seu orgulho tinha limite e resolveu entrar.
Com o cotovelo empurrou a maçaneta para baixo, com o ombro delicadamente empurrou a porta. Com as mãos pretas de carvão adentrou a cozinha e viu o relógio que marcava meio dia e quinze. Andava instintivamente com as palmas das mãos para cima, como se rezasse o pai nosso em pensamento. Pensou por um momento em ir para a sala onde ouvia conversas e risadas altas.
Mas sentiu-se ridículo.
Chegar lá naquele estado e falar que falhara em sua missão. Desistiu da idéia e olhou a sua volta. Na pia havia uma pirâmide de espetos com carnes e na mesa sacolas de mercado com garrafas de refrigerante. Isso tudo o fez lembrar que aquilo era um churrasco comunitário e que ele trouxera o maldito carvão.
Pensava, praguejava sobre o carvão e olhava a mesa, ainda na posição do pai nosso.
Avistou na mesa, em meio a garrafas plásticas, uma garrafa de vidro. Era cachaça, cachaça da boa, da forte! Pensou no tanto de álcool que ali teria. Cinqüenta? Sessenta por cento?
Não bebia, só água e suco de caju. Mas a idéia de poder finalmente acender a churrasqueira foi demais pra ele. Pensou ao mesmo tempo em tomar uma dose pra comemorar o possível feito.
Com as mãos pretas, manchando a garrafa, a abriu. Pegou um copo e foram os quatro para fora. Ele, a garrafa o copo e a idéia. Os três primeiros sujos de carvão.
Encheu o pequeno copo até não caber mais e lembrou que sempre vira ao passar pelas portas dos bares, homens que ofereciam a primeira dose para o santo. Nada mais justo, pensou. Aproveitaria para pedir ajuda ao santo para que acendesse o fogo.
Com o pequeno copo cheio, virou de costas para a churrasqueira e, por cima do ombro direito, lançou o líquido que molhou o carvão.
_ Acende diacho! Diacho não… Santo!
Olhou para ver se tinha acertado, e tinha! Em cheio!
Encheu novamente o copo, essa não era para o santo, nem par ao carvão, era para Zelão! Tomou em um só gole.
Fez cara feia, tossiu e fez barulhos estranhos. Não estava acostumado e aquilo desceu queimando. Se aquilo acontecera com ele, imagina com o carvão, pensou.
Riscou um fósforo e jogou. O fogo pegou, pegou de jeito! Como pegava em seu estômago ainda em jejum naquela manhã de domingo.
Abanou com a seção de esportes, todos estavam quentes. Todos, se possível fosse, estariam suando como Zelão. O carvão e o jogador desconhecido.
As primeiras fagulhas voavam e Zelão sorria.
Saiu a primeira levada de carne, a segunda, a terceira…
O homem do tempo tinha acertado mais uma vez!
_ Domingo de muito sol entre nuvens…
Nuvens de fumaça, mas ainda assim, nuvens.

Já de noite, as pessoas se despedem. Zelão, a mulher, Dona Marta, o marido e Helena, que viera sozinha. O marido não quis vir, nem a filha. “Só porque era no pé do morro. Só porque do quintal via-se a favela! Um absurdo…” pensava Helena, desculpando-se junto aos gentis anfitriões.
Levou um pouco de carne para casa para o marido e para a filha. Achou que ambos não mereciam, mas levou mesmo assim.
Helena chegou em casa, o marido dormia. A filha ao ouvir o barulho da porta, destrancou-se de seu quarto, onde lia Allan Poe.
Trocaram poucas palavras:
_ E seu pai, vocês comeram?
_ E ai, estava bom lá mãe?
A menina pegou a carne fria, colocou-a em um prato e perguntou à mãe:
_ Quanto tempo? Um tá bom?
A mãe respondeu enquanto tirava os sapatos apertados:
_ Um e trinta, se não por dentro fica frio…
A filha colocou no microondas o prato e o cobriu. Com quatro dígitos, mas sem nenhum sorriso, esquentou a carne.

Antonio Hércio

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Friday, November 17, 2006

Menos grande do que o nada

Em um mundo mais torto do que plano,
Uma vida vêm enquanto a outra já se foi.
Vida mais rápida do que bela.

O café mais quente do que doce
É engolido na pressa da manhã

Já não sobraram
Coisas bonitas nem gostosas para as crianças.

Futuro e passado.
Os dois tempos existentes,
Do Sempre!

Um deles nos dá força para continuarmos vivos,
O outro também.

Pois o presente nunca existiu.
A não ser no início do namoro,
Do jovem casal de namorados.

Que no passado estavam sozinhos
E no futuro também estarão.

Entre dores nas costas e as lágrimas que não vieram
Eu escrevi estes versos.

Mais estranhos do que belos,
Mais presentes do que tudo.

Antonio Hércio

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Saturday, November 4, 2006

Poema do Recomeço

Após final fracasso, eu cai;
Perante tal tormento, levantei;
Pequenos grandes erros procurei;
A fim de explicar por qual pequei.

Meu passado fora doce e almejado;
Seu desfecho, em sonhos não cumpridos;
O clímax em planos prometidos;
Presente amargo, simplesmente inesperado.

Mas o Destino, velho amigo do Amor;
Decidiu triste canção mudar o tom;
Na vida minha, surgiu um anjo bom;
Seu belo encanto diluiu a minha dor.

Novo encanto, novos sonhos, vida nova;
Sem velhos medos, entregar-se novamente;
A cada fase a esperança se renova;
Muitos acham ser um ato inconseqüente!

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O Cabaré

O viver de amor é pecado.
O morrer de amor é passado.
Pois ninguém mais morre de,
Apenas vive de, e mata por.
Trair é esquecer-se de amar por uns instantes.
Traímos apenas quem amamos.
Trair é pecado como viver de amor.
Matar é pecado como viver de amor.
Vive de amor quem o concebe.
Um amante após o outro…
Nascido do esquecimento,
Crescido no pecado de quem vive,
Morto ao fim dos minutos e moedas.
Um cliente após o outro…

Antonio Hércio

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Thursday, November 2, 2006

O choro de mulher

Como me dói ver uma mulher chorar.
Mulher a partir dos trinta, vinte ou dez.
Não tem como ser preciso.
Cada um tem sua metamorfose em seu tempo.

Para fazer tal identificação me valho dos olhos.
Não de qualquer empirismo biológico ou sexual.
Apenas olhar basta, me valho dos olhos.
Não de qualquer instinto macho ou aparência física.

Muitas porém, chegam a causar certas dúvidas…

Pois em cada reflexo de mulher,
Existe uma menina, que travessamente brinca de esconder.
E em cada menina existe a mulher,
Que em seu momento irá florescer.

Como me dói ver uma mulher chorar.

Tantas coisas poderiam existir, outras o inverso.
Eu desejaria que não houvesse o choro de mulher,
Pois mesmo quando de alegria, mesclado com o sorriso,
Ainda há as lágrimas e o enxugar delas, os soluços…

Como me dói ver uma mulher chorar.

Antonio Hércio

Destino

Chegou outra vez o inverno
Barcos afundam no mar
Migrar em busca de vida
Para tão longe chegar

Chegou outra vez o inverno
Barcos afundam no mar
Carros aos montes se batem
Para tão perto chegar

Aviões caem na terra
Barcos afundam no mar
Carros aos montes se batem
Para tão perto chegar

Chegou outra vez o inverno
É hora de outra vez se mudar
Migrar em busca de vida
Andorinha continua a voar

Antonio Hércio

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Tuesday, October 31, 2006

Retrato vestido e cozido de uma guerra

O revólver de balas de goma foi desafiado pela espada de lâmina de plástico.

A guerra com bombas de chocolate e metralhadoras de bolinhas de sabão começou.

Parece não ter mais fim!

Mas só parece…

Os soldados param a guerra e trocam figurinhas repetidas.

De repente, o chão é manchado de vermelho!

Um soldado que matava a sede e morria de rir deixou cair seu copo de groselha.

Aviões sobrevoam o campo de batalha soltando fumaça colorida e escrevendo no céu palavras bonitas.

Enquanto cavalos montados por palhaços e malabaristas iam por terra.

A guerra finalmente termina após sete longos minutos de alegria, gargalhadas e nenhuma vida perdida.

Antonio Hércio

A espera

O belo esta nas coisas simples.
Muitos já me disseram isso,
Mas há pouco que compreendi.
Parado esperando pelo ônibus
Avistei um cão deitado na sombra.
Distava uns três ou quatro metros de mim,
O que deixava clara sua expressão.
Parecia calmo, conformado e triste.
Tinha um pequeno porte, não tinha rabo.
Era praticamente todo preto, com manchas marrons.
Essa breve descrição parece ser fruto de uma rápida observação,
Porém no momento perdi-me a matutar.
Eu ouvia assustado o motor de ônibus e olhava,
Preparava-me para o sinal…
Parecia oito oito, mas era oito três…
Algumas das pessoas que ali estavam partiram.
Ficando apenas outras duas, além de mim.
Reparando melhor, percebi que o cão tinha coleira.
Ela parecia sumir no pelo da mesma cor.
Em certo instante, ele pareceu perceber o observador.
Olhou fixamente para mim, durante longos segundos.
Quando como em um susto após um rápido cochilo
Avistei outro ônibus vindo ao fundo.
Forcei os olhos lutando contra a miopia.
Pois dessa vez parecia oito oito, mas era oito seis…
Ninguém deu sinal, ninguém desceu e ele passou.
Voltei a observar o cão que quase adormecia.
Tinha um piscar de olhos pesados.
Despertava quando passava algum veículo mais barulhento
Ou então uma pessoa mais próxima a ele.
Talvez seja seu instinto animal de sobrevivência.
Tinha um piscar de olhos cada vez mais lento,
Como as gotas do telhado que vão secando
Após a chuva da tarde sem importância.
Avistei outro ônibus.
Era oito oito… Acabei partindo.
Ao passar pela catraca olhei novamente.
O cão se levantou e partiu com passos curtos e rápidos,
Calmo, conformado e triste.

Antonio Hércio

Posted by PPJ in 05:21:43 | Permalink | Comments Off

Segredos e Motivos

Quero saber de onde vim, para onde vou.
O fato de que nascemos da mãe, é sabido!
Os opostos em uma união devida, de vida
Mas e o começo? Aonde irei? Como termina?

Há tempo há explicação e não há,
Pensando, lembro-me do colégio,
Falavam em bilhões de anos, ou seria milhões?
Acho que estão me enganando…

Existem também outras hipóteses.
A maioria diz que apenas um disse:
_Haja luz! – depois de criar céu e terra.
Mas quem fez água? Para pairar sobre ela ele?

Acho que estão me enganando;
Escondendo de mim algo legal;
Poderiam dividir comigo, juro segredo!
Parece que verdades sempre brincam de esconder…

Também não sei para onde vou.
Só sei que a cada batida do meu coração,
Cada palavra escrita por mim e lida por você,
Nosso caminho para não sei onde fica menor.

Finalmente no finalmente da minha vida,
Terei certeza da maior incerteza de todos nós.
E assim sendo, como todos fazem comigo,
Não contarei nada a ninguém, que descubra!

Posted by PPJ in 05:18:52 | Permalink | Comments (3)